sábado, 29 de dezembro de 2012

CÂNCER DE OVÁRIO PODE SER DIAGNOSTICADO MAIS CEDO


O tumor mais letal a atingir as mulheres já pode ser diagnosticado mais cedo. Um documento assinado por 40 organizações americanas reconhece que esse câncer tem, sim, alguns sintomas, muitas vezes ignorados por médicos e pacientes. Manter-se atenta aos sinais emitidos pelo corpo pode fazer a diferença.

Por Cristina Nabuco

Ele tem fama de matador silencioso. Embora corresponda a no máximo 4% dos tumores malignos que afetam as mulheres - incidência bem inferior à do câncer de mama -, o câncer de ovário provoca mais estragos. É uma das principais causas de morte feminina nos países industrializados (a quarta na Grã-Bretanha, a quinta no Canadá) porque, em 80% dos casos, o diagnóstico da doença é feito em estágio muito avançado, quando as células malignas já se espalharam pela cavidade abdominal e as chances de cura são menores. Os índices de sobrevivência poderiam pular de 30 para 90% com a descoberta precoce desse mal. Por isso, os cientistas estão em busca de um teste de rastreamento equivalente à mamografia, que identifica o tumor de mama em estágios iniciais. A boa notícia é que os pesquisadores enxergam uma luz no fim do túnel: os sintomas do câncer de ovário podem ser percebidos mais cedo do que se supunha. 

Os trabalhos de Barbara Goff, diretora de oncologia ginecológica da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, contestam a tese de que os sinais só aparecem tardiamente. Em janeiro, ela publicou um artigo sobre o tema na revista científica CANCER, o que conduziu a uma nova conduta na área médica. No dia 25 de junho, organizações lideradas pela Fundação do Câncer Ginecológico, pela Sociedade dos Oncologistas Ginecológicos e pela Sociedade Americana do Cân cer formalizaram um consenso atualizado sobre a doença.

O documento destaca que quatro sintomas podem levar a mulher a pesquisar a presença do câncer de ovário: inchaço ou aumento do volume abdominal, dor pélvica ou abdominal, dificuldade para comer ou sensação rápida de saciedade e alterações urinárias, como a necessidade urgente ou freqüente de ir ao banheiro. Apresentá-los quase diariamente por mais de três semanas justifica uma ida ao médico, sobretudo quando sinalizarem mudança no estado habitual de saúde. "Não queremos assustar as pessoas", disse Barbara Goff em entrevista ao jornal THE NEW YORK TIMES. Esses sintomas podem ter outras causas, inclusive benignas, mas ela adverte: O câncer de ovário é uma hipótese a ser considerada".

É justamente aí que está o problema. "Os médicos nem sempre valorizam as queixas e perdem oportunidades de antecipar a descoberta do tumor", afirma ela. Ao estudar 1,7 mil pacientes com câncer de ovário, Barbara verificou que 36% tiveram um diagnóstico inicial equivocado, atribuído a depressão ou stress, entre outros problemas. Pior: 12% ouviram que não tinham nada de errado e que a origem de seu mal-estar era de ordem psicológica. "A expectativa é que o consenso firmado em junho levante a suspeita de câncer mediante essas queixas, em geral colocadas em segundo plano", informa Agliberto Barbosa de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Ginecologia Oncológica (Sobragon). "Isso deve estimular o encaminhamento para o ginecologista oncológico, especialista mais habilitado para reconhecer e tratar o tumor, e possibilita maior número de diagnósticos precoces."

Ainda é cedo para saber se a lista de sintomas conseguirá reduzir a mortalidade por câncer de ovário ou se, na outra ponta, levará a uma enxurrada de exames e cirurgias desnecessárias, avalia Jesus Paula Carvalho, professor da Faculdade de Medicina da USP e chefe do grupo de Câncer Ginecológico do Hospital das Clínicas de São Paulo, "mas é um método válido enquanto não dispomos de opção melhor, como um teste para detectar o câncer de ovário em estágio mais precoce: antes que manifeste qualquer sintoma".

Conheça o inimigo
O termo câncer de ovário é uma espécie de guarda-chuva sob o qual se abrigam diversas doenças. A mais freqüente delas, o carcinoma de ovário, é também uma das mais agressivas: surge após a menopausa, embora comece a se desenvolver anos antes. Os tumores de células germinativas afetam sobretudo adolescentes e mulheres mais jovens. Já os de cordões sexuais e os borderline (de baixo potencial de malignidade ou limítrofes) podem surgir em qualquer idade. Os prognósticos são melhores para os borderline, que acabam curados em mais de 90% dos casos.

Como se faz o diagnóstico?
Pelo exame ginecológico, palpação abdominal e toque vaginal, por meio de imagens colhidas por ultra-som, se possível endovaginal, tridimensional e com doppler (que mostra o fluxo de sangue no local, o que fornece pistas para os médicos), e pelo marcador tumoral CA 125, teste sanguíneo que dosa uma proteína produzida pelo câncer. Mas, embora seja útil para acompanhamento de tumores, o marcador não é muito confiável para diagnóstico inicial, avisa Agliberto Oliveira.

Cistos de ovário podem virar câncer?
Felizmente não, porque uma em cada três mulheres em idade reprodutiva forma esses "sacos" cheios de líquido. Mais de 80% constituem acidentes de percurso sem maiores conseqüências, por isso recebem o nome de cistos funcionais. Contudo, nem sempre é fácil distinguir um cisto inofensivo de um tumor maligno. Certas características avistadas no ultra-som aumentam a suspeita de câncer, informa o médico Jesus Carvalho: conteúdo sólido e líquido, presença de múltiplas cavidades e formação de uma rede de vasos no local. A confirmação requer uma biópsia, isto é, uma análise microscópica de amostras do cisto.

É possível fazer punção ou uma cirurgia não invasiva para coletar esse material?
Na suspeita de câncer de ovário, tanto a punção (aspiração do conteúdo com agulha) quanto a cirurgia por via laparoscópica devem ser descartadas. Há perigo de disseminar as células malignas, facilitando o aparecimento de novos focos do tumor. Se os indícios forem fortes, recomenda-se uma cirurgia exploratória.

Como é o tratamento?
O principal é a cirurgia para remoção dos tecidos, que será mais ou menos radical conforme o tamanho e a agressividade do tumor. Leva-se também em conta a idade da paciente. Se ela não tiver filhos, procura-se preservar o outro ovário e o útero, desde que não haja risco de vida. Do contrário, pode-se congelar óvulos ou fragmentos sadios do ovário para uso futuro em fertilizações assistidas, sugere Agliberto Oliveira. O tratamento envolve, ainda, quimioterapia, emprego de fármacos contra as células tumorais. Pode ser feita após a cirurgia, antes (se a intenção é reduzir o tamanho do tumor para aplicar uma técnica mais conservadora) ou durante. A quimioterapia intra-operatória é um método experimental em que as drogas são injetadas dentro do abdome, em temperatura normal ou elevada, para destruir células malignas.

Quais são os fatores de risco?
Histórico pessoal de câncer de mama (os dois tumores podem se originar da mesma mutação genética) e antecedente familiar (quem apresenta casos na família pode herdar uma predisposição para a doença). Mas, atenção, apenas 10% dos tumores são de origem genética. Os demais estão relacionados à exposição a agentes tóxicos (cigarro, agrotóxicos e uso regular de talco nos genitais) e estilo de vida, como mudanças na alimentação e em especial nos hábitos reprodutivos. É bom lembrar que, no início do século 20, a mulher menstruava apenas 50 vezes na vida, porque casava cedo, tinha muitos filhos e passava longos períodos amamentando. Agora menstrua mais de 350 vezes porque retarda a gravidez, tem poucos filhos e amamenta menos. "O câncer de ovário está relacionado ao número excessivo de ovulações", explica Jesus Carvalho.

Pílula anticoncepcional previne o tumor?
Considera- se que ela tem efeito protetor porque suprime a ovulação. O emprego de pílula por mais de cinco anos faz a incidência de câncer de ovário cair 60%. A terapia de reposição hormonal tem o mesmo efeito protetor? Não, porque nessa fase os ovários já encerraram a atividade. O que dá resultado é inibir a ovulação. Existe a suspeita de que a reposição hormonal cause alguns tipos de tumores mais raros. Drogas para induzir a ovulação podem provocar o câncer? O citrato de clomifeno, empregado em tratamentos de fertilização assistida, foi colocado no banco de réus por hiperestimular os ovários e também porque se observaram vários casos entre as usuárias. Porém, trabalhos recentes sugerem que o ovário dessas mulheres já era mais propenso ao câncer antes mesmo de travar contato com a droga. O que fazer quando a mulher sabe que corre risco por ser portadora de mutações genéticas? A probabilidade de ter um câncer de ovário chega a 60% para quem possui mutações nos genes BRCA 1 e BRCA 2. Pode-se cogitar um acompanhamento rigoroso, uso de contraceptivos orais ou uma medida mais drástica: a retirada preventiva dos ovários. Estudos detectaram o câncer em 2,5% dos ovários aparentemente saudáveis e assintomáticos removidos por precaução, informa Jesus Carvalho. O cuidado se justifica, já que o câncer de ovário é um dos mais devastadores. Daí se entende porque o aparecimento de uma pequena luz no fim do túnel foi suficiente para mobilizar tantas organizações.

DEPOIMENTO: Quase pirei pensando que entraria na menopausa e nunca teria um filho

 "Aos 23 anos, tive um atraso menstrual. Culpei o stress e não dei bola. Mas, quando percebi que o atraso já durava dois meses e vi minha barriga inchada, entrei em pânico. Achei que estava grávida. O ginecologista pediu exames que encontraram um tumor do tamanho de uma laranja no meu ovário direito. Teria que ser operada, fazer biópsia e, conforme o resultado, talvez até tirar o útero. Tumor? Cirurgia? Biópsia? Assim de repente? Eu não podia acreditar... Afinal, eu me considerava tão saudável que nem fazia exames ginecológicos de rotina. Passei por cinco médicos e não havia escolha. Marquei a cirurgia. Extraíram o ovário e a trompa direita. Levei 40 pontos internos e fiquei com uma cicatriz horrível, vertical, de 18 centímetros na barriga - a médica explicou que não dava para fazer um corte pequeno e horizontal como o da cesariana porque tinha de pegar o tumor com as mãos, tomando cuidado para não estourar e vazar o conteúdo. Se eu tivesse descoberto mais cedo, talvez não fosse necessário um corte tão grande. A biópsia mostrou que não era dos mais agressivos, mas do tipo borderline. Não precisei de quimioterapia. A orientação foi tomar pílula para dar descanso ao ovário remanescente e a cada três meses fazer exames de acompanhamento. Nunca mais apareceu qualquer sinal da doença. Casei, trabalhei, viajei. Agora quero ter um filho.
PAOLA DEL MÔNACO, 32 ANOS, ASSESSORA DE IMPRENSA, DE SÃO PAULO

Vídeo: è possível prevenir o câncer de ovário?


4 comentários:

  1. Oi, meu nome é Kátia, moro no Guarujá/SP, tava pesquisando na net e achei vc, primeiro parabenizo pela vitoria que a sua recuperação e tb por contar a sua luta, espero que cada dia na sua vida seja um passo rumo a saúde, obrigada por nós permitir fazer parte dessa luta.

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    1. Olá Katia, tudo bem?
      Fico feliz que tenha gostado do blog e obrigada pela torcida para a minha plena recuperação!
      Divulgue o site para as suas amigas e parentes, pois quanto mais gente for orientada a respeito desse câncer, melhores serão as chances de combatê-lo!
      Um grande abraço!

      Nanci

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  2. Olá ! O mesmo aconteceu comigo, porém não foi possível apenas tirar o tumor e o ovário, retirou-se tudo, agora aguardo a resposta do patologia, tenho 20 anos fui diagnosticada a mais ou menos um mês o cisto media 15 cm, muito bom poder ler o blog e saber um pouco mais dessa patologia e como enfrenta-la o que pra mim tem sido bem difícil! boa noite fiquem com Deus"

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    1. Olá querida leitora,
      Lamento saber que o câncer de ovário tem acometido pessoas tão jovens como você, mas graças a Deus a medicina tem evoluído bastante não é mesmo? Tenha fé em Deus que tudo dará certo! Estou torcendo por você! Quando tiver o resultado da patologia, compartilhe com a gente, se puder, OK?
      Um abraço com muito carinho.

      Nanci

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